22 DE OUTUBRO 2008 (Quarta-feira) — A Remarcação
Levantei-me cedo e fui caçar. Quando cheguei de volta ao
acampamento, todos já haviam se deslocado para o jatobá onde está localizado o
Centro. O novo marco de alumínio foi colocado na face leste do jatobá. O rumo
da picada do Xingu ao Centro é leste/oeste. Como em toda solenidade, houve
discursos do Sérgio e do Raoni, hasteamento da bandeira do Brasil e o Sérgio pôde
cumprir o que havia prometido: remarcar o Centro na presença de um branco, um
índio e um negro (Sérgio, Raoni e o Duquinha).
Os oradores disseram que cabe aos mais jovens o papel de conservar aquele lugar para as que futuras gerações saibam que Centro Geográfico do Brasil fica em território indígena. Os índios cantaram uma canção de guerra Kaiapó. O ato foi filmado e foram tiradas muitas fotos. A equipe da TVCA entrevistou o Sérgio, o Raoni e o Adrian Cowell, em reportagem que deverá ser veiculada proximamente.
Finda a solenidade, regressamos ao acampamento-base no mesmo dia, depois de ingerir uma sopa feita pelo Valmir. Como são 18,460Km não foi possível chegar no acampamento-base no mesmo dia. Dormimos no Km-10 da picada.
Toda a equipe da televisão estava super cansada, pois, eles
levaram muito peso. Só a filmadora pesa
12 quilos, o tripé 8 quilos, e ainda uns 10 quilos
de baterias. Acho que, só de equipamentos, eles levaram mais de 30 quilos, fora
os pertences pessoais.
Na ida, o Tarepá ajudou a carregar, mas, na volta, não havia nenhum índio para nos ajudar. O Renato já estava com várias bolhas nos pés, o Valmir, que na ida foi muito bem com a sua mochila e a filmadora, começou a baquear. Em dado momento, ele nos informou: estou passando muito mal, a minha pressão caiu.
Olhamos para ele e, de fato, o homem estava branco e
suando frio. De repente, começou a vomitar. A partir daí, não tivemos outra
alternativa, paramos imediatamente no meio da picada. Improvisamos ali o nosso
acampamento. Cortei lenha em grande quantidade para fazer uma fogueira. Parecia
até fogueira de São João, dado o volume lenha. A gente só tinha um facão e
nenhuma arma de fogo. Penduramos as redes dos três bem próximas, depois
improvisei a minha cama no meio da picada. Plástico de bolinha, sacos de ráfia
e sacos de lixo.
Até ali tudo bem, mas eis que o tempo virou e começou a roncar trovoadas e, em seguida, chuva. Os três tinham capas de chuva, dormiram com elas ao relento. O Renato conversou até a meia-noite. Tempos depois, verifiquei que eu estava começando a ficar todo molhado. Com a chuva mais intensa, formou-se uma pequena enxurrada que entrou no saco de lixo. Não tive dúvida, abri o saco de lixo, coloquei-o sobre a rede do Valmir e fiz nova cama debaixo da rede dele. Só assim pude dormir. Com essa solução, dois problemas foram resolvidos: o Valmir, que passava mal ficou protegido, e eu não me molhei mais. Foi um sufoco geral. Ministramos um comprimido de emoprazol ao Valmir.
Ao amanhecer no dia seguinte, ele estava refeito. Antes da chuva, eu e o Esmael, que estava em melhores condições físicas, andamos uns 500 metros na picada para buscar água, local onde o Sérgio tinha feito um acampamento durante o deslocamento para o Centro.
A coisa ficou feia naquela noite. Chuva, um doente, outro que não conseguia dormir e que toda hora pedia para o Esmael acender a lanterna. Só dispúnhamos de duas lanternas, uma delas com as pilhas tão fracas que mais parecia um vaga-lume.